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Usando o Formulário de Referência para a Redução do Custo de Capital
No mercado de capitais, a qualidade da comunicação é um dos fatores que mais influenciam a percepção de risco dos investidores. Por mais que indicadores financeiros, resultados operacionais e perspectivas de crescimento sejam elementos fundamentais para a tomada de decisão, a forma como essas informações são apresentadas ao mercado pode ser igualmente relevante para a precificação de uma companhia.
O Formulário de Referência (FRE) ocupa uma posição estratégica, apesar de frequentemente visto apenas como uma exigência regulatória da Comissão de Valores Mobiliários (CVM), o documento reúne informações detalhadas sobre a estrutura societária, governança corporativa, riscos, estratégia, sustentabilidade, remuneração e gestão das companhias. Quando utilizado de forma inteligente, torna-se uma poderosa ferramenta de comunicação institucional e relacionamento com investidores.
Pensando nisso, a MZ publica anualmente o seu Estudo Global do Formulário de Referência, com base na análise de 307 companhias registradas na CVM, e que oferece um panorama abrangente sobre como as empresas brasileiras vêm divulgando informações relacionadas a governança, ESG, diversidade, gestão de riscos e projeções (guidance) de desempenho. Os resultados mostram avanços importantes em transparência, mas também evidenciam oportunidades relevantes para aprimorar a comunicação corporativa.
Mais do que atender às exigências regulatórias, o Formulário de Referência pode contribuir diretamente para a redução do custo de capital das organizações. Afinal, quanto maior a transparência, menor tende a ser a percepção de risco dos investidores. E quanto menor o risco percebido, menor o retorno exigido pelo mercado para investir naquela companhia.
A Transparência é um Ativo Estratégico
A assimetria informacional é um dos principais desafios do mercado financeiro. Gestores, conselheiros e executivos possuem acesso a informações que o mercado muitas vezes não conhece integralmente. O papel da área de Relações com Investidores (o famoso RI) é justamente reduzir essa diferença de conhecimento.
Quando investidores não conseguem compreender adequadamente um negócio, tendem a incorporar um prêmio de risco adicional em suas avaliações. Esse prêmio pode se traduzir em múltiplos mais baixos, menor liquidez das ações e maior custo de captação de recursos.
Por outro lado, empresas que fornecem informações completas, consistentes e acessíveis permitem que investidores construam modelos mais precisos, compreendam melhor os riscos envolvidos e desenvolvam maior confiança na gestão.
“O mercado não penaliza apenas a falta de resultados. Muitas vezes, ele penaliza a falta de entendimento. Quando a empresa comunica sua estratégia, seus riscos e suas perspectivas de forma clara, ela reduz incertezas e permite que os investidores avaliem o negócio com mais precisão.”
Cássio Rufino, COO & CMO da MZ
O FRE é uma das ferramentas mais completas para esse processo. Diferentemente de releases trimestrais ou apresentações de resultados, que normalmente possuem foco operacional e financeiro de curto prazo, o FRE oferece uma visão abrangente sobre o negócio e sua estratégia de longo prazo. Por isso, companhias que tratam o documento apenas como um requisito regulatório acabam desperdiçando uma oportunidade valiosa de fortalecer sua narrativa corporativa.
Governança Corporativa e Confiança do Mercado
Um dos principais pilares analisados pelo Estudo foi a estrutura de governança das companhias. Os dados mostram que 81,1% das empresas analisadas possuem comitês instaurados, com destaque para os Comitês de Auditoria, presentes em 87,1% dos casos. Além disso, 52,3% das companhias mantêm Conselhos Fiscais instaurados.
Para investidores institucionais, especialmente estrangeiros, a qualidade da governança corporativa é um dos principais fatores considerados na avaliação de investimentos. Empresas com estruturas robustas de governança costumam transmitir maior previsibilidade e menor risco de decisões discricionárias.
O Estudo também mostra que 95% das políticas de gerenciamento de riscos são aprovadas pelos Conselhos de Administração, reforçando o papel desses órgãos na supervisão estratégica das organizações. Além disso, 84,7% das companhias possuem políticas formais de gerenciamento de riscos.
Quando essas informações são comunicadas de maneira clara, elas ajudam investidores a entender que a companhia possui processos estruturados para identificar, monitorar e mitigar riscos, reduzindo incertezas sobre sua capacidade de execução.
Da Obrigação à Construção de Credibilidade na Gestão de Riscos
Um dos capítulos mais relevantes do Estudo aborda a divulgação de riscos. Os dados mostram que 88,6% das companhias reportaram riscos relacionados aos administradores, 90,2% mencionaram riscos sociais, 92,2% identificaram riscos ambientais e 89,6% divulgaram riscos associados às mudanças climáticas.
À primeira vista, alguns executivos podem interpretar a divulgação detalhada de riscos como algo negativo. Entretanto, a experiência dos mercados mais desenvolvidos mostra justamente o contrário. Investidores não esperam empresas livres de riscos. O que eles procuram são organizações capazes de reconhecer seus desafios e demonstrar como estão se preparando para enfrentá-los.
O próprio Estudo evidencia essa realidade ao apontar que os principais fatores de risco mencionados pelas companhias foram riscos operacionais (63,8%), macroeconômicos (36,8%), ameaças cibernéticas (31,9%), riscos regulatórios (27,7%) e riscos de liquidez (23,8%).
Uma comunicação transparente sobre esses temas contribui para fortalecer a credibilidade da gestão. Quando investidores percebem que a empresa possui maturidade para lidar com riscos complexos, a confiança aumenta e a exigência de retorno tende a diminuir.
ESG: De Tendência a Exigência do Mercado
Outro aspecto que merece destaque é a evolução das práticas ESG. Segundo o Estudo, 73,9% das companhias analisadas afirmam possuir iniciativas ESG estruturadas. Entre elas, 94% realizam reportes anuais e 61,2% submetem essas informações à auditoria ou revisão independente. Além disso, 96,9% das empresas que possuem práticas ESG afirmam considerar os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), enquanto 54,2% seguem as recomendações da Força-Tarefa sobre Divulgações Financeiras Relacionadas ao Clima (TCFD) relacionadas à divulgação de riscos climáticos.
Esses números mostram que o mercado brasileiro continua avançando em direção a padrões internacionais de transparência. Para investidores institucionais globais, questões ESG deixaram de ser um diferencial e passaram a integrar os critérios mínimos de avaliação. Fundos de pensão, gestores internacionais e investidores especializados utilizam essas informações para analisar riscos de longo prazo, qualidade da gestão e sustentabilidade dos negócios.
Nesse cenário, o Formulário de Referência torna-se um importante instrumento para consolidar e comunicar essas iniciativas.
Diversidade e Capital Humano: Indicadores Cada Vez Mais Relevantes
A evolução dos mercados também trouxe uma ampliação do conceito de valor corporativo. Hoje, investidores observam não apenas resultados financeiros, mas também aspectos relacionados à composição da liderança, sucessão executiva, diversidade e gestão de pessoas.
O Estudo revela que as mulheres representam apenas 14,6% das Diretorias Executivas e 17,4% dos Conselhos de Administração e Fiscais. Em relação à diversidade racial, 88,7% das Diretorias Executivas e 85,8% dos Conselhos são compostos por pessoas que se declararam brancas. Independentemente de posicionamentos individuais sobre o tema, o fato é que esses indicadores já fazem parte das análises conduzidas por diversos investidores institucionais.
Mais importante do que os números isolados é a capacidade da companhia de contextualizar essas informações, explicar suas iniciativas e demonstrar evolução ao longo do tempo. A ausência de narrativa pode fazer com que os dados sejam interpretados de forma negativa. Já uma comunicação transparente permite apresentar o contexto, as metas e os avanços realizados.
Construindo Previsibilidade
Um dos aspectos mais valorizados pelos investidores é a previsibilidade. O Estudo deste ano mostra que apenas 25,1% das companhias divulgam projeções em seus Formulários de Referência. Entre as métricas mais utilizadas estão CAPEX (44,2%), Receita (29,9%), Produção (28,6%) e EBITDA (27,3%).
Embora nem todas as empresas possuam condições de divulgar guidance formal, a previsibilidade continua sendo um elemento central para a formação de valor. Investidores precisam construir cenários futuros para avaliar uma companhia. Quanto maior a qualidade das informações disponíveis, menor a necessidade de assumir premissas subjetivas.
Nesse sentido, projeções, metas operacionais, prioridades estratégicas e indicadores de desempenho ajudam a reduzir a incerteza e melhoram a capacidade do mercado de precificar corretamente os ativos. A consequência natural desse processo é a redução do prêmio de risco exigido pelos investidores.
O Papel do RI na Construção da Narrativa Corporativa
Talvez o maior aprendizado do Estudo seja que os dados, isoladamente, não são suficientes. Informações sobre governança, ESG, riscos, remuneração, diversidade ou estratégia possuem pouco valor se não forem contextualizadas dentro de uma narrativa clara.
É justamente nesse ponto que a área de Relações com Investidores assume protagonismo. O profissional de RI atua como tradutor entre a companhia e o mercado. Seu papel não é apenas divulgar informações, mas ajudar investidores a compreenderem a lógica do negócio, seus diferenciais competitivos, seus desafios e suas perspectivas futuras.
O Formulário de Referência oferece uma oportunidade única para consolidar essa narrativa. Uma empresa que comunica adequadamente sua estratégia, demonstra governança sólida, apresenta seus riscos de forma transparente e evidencia sua capacidade de execução tende a conquistar maior credibilidade junto ao mercado.
Essa credibilidade gera confiança. E confiança, no mercado de capitais, é um dos ativos mais valiosos que uma companhia pode possuir.
Concluindo em um parágrafo ou mais
Os resultados do Estudo Global do Formulário de Referência 2026 demonstram que as empresas brasileiras continuam avançando em temas relacionados à governança corporativa, gestão de riscos, ESG e transparência. A ampla adoção de comitês, políticas de gerenciamento de riscos, auditorias independentes para informações ESG e mecanismos de supervisão evidencia uma crescente maturidade do mercado de capitais nacional. Ao mesmo tempo, indicadores relacionados à diversidade, divulgação de projeções e padronização das informações mostram que ainda existem oportunidades relevantes para evolução.
“O Formulário de Referência é uma das narrativas mais completas que uma companhia pode apresentar ao mercado. Quando utilizado de forma estratégica, ele deixa de ser apenas uma obrigação regulatória e passa a ser um instrumento de credibilidade, capaz de fortalecer a reputação corporativa e contribuir para a redução do custo de capital.”
Cássio Rufino, COO & CMO da MZ
Mais importante, o Estudo reforça que o Formulário de Referência deve ser encarado como uma ferramenta estratégica de comunicação e não apenas como uma obrigação regulatória. Quando utilizado para construir uma narrativa consistente, fortalecer a transparência e reduzir assimetrias informacionais, o documento contribui diretamente para aumentar a confiança dos investidores. Em última instância, empresas que comunicam melhor seus riscos, sua estratégia e sua governança tendem a ser percebidas como menos arriscadas, o que pode resultar em maior liquidez, melhor avaliação de mercado e menor custo de capital. Em um ambiente cada vez mais competitivo pela atenção dos investidores, comunicar bem deixou de ser um diferencial e passou a ser uma vantagem estratégica.
Esperamos ter contribuído com insights sobre esse Estudo que consideramos super importante para os profissionais de RI. Qualquer dúvida, já sabem, estamos por aqui, sempre à disposição! 😉
Equipe Comunicação Externa & Pesquisa MZ
mz.estudos@mzgroup.com | (11) 9599-1329
Sobre a MZ
A MZ é referência global na criação de conteúdos informativos e educativos que geram valor real para as companhias, ajudando-as a se manterem atualizadas e preparadas para os desafios do mercado de capitais. Nossa abordagem é estratégica, com foco em fortalecer o entendimento sobre práticas de governança, comunicação financeira e relações com investidores. Acreditamos que, por meio de conteúdo de qualidade, podemos apoiar as empresas a aprimorar sua comunicação, elevar sua reputação e agregar valor sustentável aos seus negócios.
Sobre Cássio Rufino
Cássio Rufino é estrategista empresarial, especializado na integração entre estratégia, marketing e performance financeira. É Sócio-diretor da MZ Group, sendo o atual COO e CMO, onde lidera áreas estratégicas de operações, sucesso do cliente e marketing. Formado em Administração de Empresas pelo Mackenzie, com pós-graduação e MBA Executivo em Finanças pelo Insper. Além de especializações em Gestão de Pessoas, Marketing e Atendimento ao Cliente.