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Não é sobre acessar investidores e sim sobre acessar os certos
No mercado atual, não é necessariamente a melhor empresa que atrai capital, é aquela mais bem compreendida. Em um ambiente marcado por excesso de informação, múltiplos canais e crescente sofisticação dos investidores, a competição deixou de ser apenas por performance operacional e passou a ser, também, por atenção, entendimento e aderência de narrativa.
A máxima “connect with the right investors” (como já retratado no em um outro artigo nosso no ano passado), deixou de ser um slogan aspiracional e passou a representar um dos pilares centrais da estratégia moderna de Relações com Investidores (o famoso RI). Mais do que ampliar o alcance, o desafio passou a ser aumentar a precisão.
Historicamente, o RI esteve associado à divulgação de informações, cumprimento regulatório e organização de eventos. Esse modelo, embora ainda necessário, tornou-se insuficiente. O RI contemporâneo opera como um estrategista de percepção, responsável por alinhar narrativa, dados, canais e relacionamento com um objetivo claro: garantir que a companhia seja corretamente compreendida pelas pessoas certas.
Essa transformação reflete uma mudança estrutural no mercado. Investidores hoje não buscam apenas informação, mas interpretação. Não basta reportar resultados e acabou. É preciso contextualizá-los, conectá-los à estratégia e torná-los comparáveis dentro de um universo competitivo cada vez mais amplo. Nesse cenário, comunicar bem deixou de ser um diferencial e passou a ser um determinante direto de liquidez, formação de preço e custo de capital .
Do volume à aderência: o novo critério de eficiência em RI
Durante muitos anos, o sucesso da agenda de RI era medido por volume: número de reuniões, conferências, calls e interações. A lógica era simples: mais exposição significava mais oportunidades.
Hoje, essa lógica foi substituída por um modelo qualitativo. O critério deixou de ser “quantos investidores” e passou a ser “quais investidores”. Em um ambiente globalizado, onde o capital transita com facilidade entre geografias e setores, o diferencial não está apenas nos fundamentos, mas na aderência entre a tese da companhia e o perfil do investidor.
Na prática, isso significa reconhecer que nem todo investidor é “o investidor certo”. Uma companhia em fase de crescimento acelerado, por exemplo, tende a ter maior aderência com investidores orientados a growth, enquanto empresas maduras e geradoras de caixa dialogam melhor com perfis de renda. Já histórias de turnaround exigem investidores com maior tolerância a risco e horizonte mais longo.
- Erro comum: tentar falar com todos ao mesmo tempo.
- Consequência: diluição da narrativa, desalinhamento de expectativas e aumento de volatilidade.
- Boa prática: priorizar investidores cuja filosofia de investimento, horizonte e mandato estejam alinhados com o momento estratégico da companhia.
Essa mudança, embora conceitualmente simples, altera profundamente a forma como o RI organiza sua agenda, estrutura sua comunicação e mede eficiência.
Da intuição à inteligência aplicada: IRM, Targeting e Profiles
Se a narrativa define o “o que dizer”, a inteligência de dados define “para quem dizer”.
O uso estruturado de ferramentas como IRM, targeting e análise de perfil de investidores representa uma das principais evoluções da área de RI nos últimos anos. O que antes era conduzido de forma descentralizada, ou seja, baseado em histórico individual e percepção subjetiva, passa a ser operacionalizado com base em dados, padrões e probabilidade.
O IRM deixa de ser apenas um repositório de contatos e passa a atuar como um sistema de inteligência relacional, permitindo:
- Mapear histórico de interações e nível de engajamento
- Identificar padrões de comportamento e interesse
- Classificar investidores por estágio na jornada de relacionamento
Quando integrado a ferramentas de targeting, esse modelo evolui ainda mais. O RI passa a ser capaz de:
- Identificar investidores com exposição a peers ou ao setor
- Monitorar movimentações recentes de portfólio
- Antecipar potenciais alocações
- Priorizar interações com maior probabilidade de conversão
Na prática: antes vs depois
- Antes: agenda reativa, baseada em convites e disponibilidade
- Depois: agenda priorizada, baseada em aderência e probabilidade
Essa mudança tem impacto direto na eficiência do RI. O tempo, que é um dos recursos mais escassos da área, passa a ser alocado de forma estratégica, e não operacional.
Quando combinada com dados comportamentais (como interação com o site de RI, abertura de e-mails ou consumo de materiais), essa abordagem permite um nível ainda mais sofisticado de atuação: a antecipação de interesses.
O RI deixa de reagir ao mercado e passa a se antecipar a ele.
O diferencial competitivo invisível da Narrativa
Nenhuma estratégia de targeting ou uso de dados será eficaz sem uma narrativa sólida.
A narrativa corporativa é o elemento que transforma dados em entendimento e estratégia em percepção de valor. É o que permite que diferentes públicos, que possuem diferentes níveis de conhecimento, compreendam não apenas o que a empresa faz, mas como ela gera valor e por que isso é sustentável.
Essa mudança de perspectiva não é isolada. Ela vem sendo amplamente debatida em fóruns relevantes do mercado de capitais, como o IR Summit 2026, assim como no IR Talks, o primeiro talk show do mercado de capitais, onde se reforçou uma transformação estrutural na função de Relações com Investidores: comunicar bem passou a ser tão estratégico quanto reportar corretamente.
Esse movimento reflete uma mudança clara de expectativa por parte dos investidores. Se antes a qualidade da informação era suficiente, hoje a forma como ela é estruturada, contextualizada e transmitida passou a ser igualmente determinante para o entendimento da tese de investimento.
No entanto, um erro recorrente é tratar narrativa como estética, quando, na verdade, ela é estrutural.
Uma narrativa eficaz precisa:
- Explicar claramente o modelo de geração de valor
- Conectar estratégia, execução e resultados
- Evidenciar diferenciais competitivos
- Ser consistente ao longo do tempo
- Ser adaptável a diferentes públicos
Exemplo prático:
- Narrativa fraca: “crescimento consistente com foco em eficiência”
- Narrativa forte: “expansão baseada em ganho de market share em regiões com baixa penetração, suportada por ganhos de produtividade operacional e disciplina de capital”
A diferença está na capacidade de transformar abstração em clareza.
“Focando na narrativa estratégica, o profissional de RI não só melhora a comunicação com os investidores, mas também consegue posicionar melhor a empresa, gerando valor contínuo.”
Cássio Rufino, COO da MZ
Além disso, a narrativa precisa estar alinhada com a realidade operacional. Um desalinhamento entre discurso e execução é rapidamente penalizado pelo mercado, gerando perda de credibilidade, que é um dos ativos mais importantes do RI.
Corporate Access: da intermediação à conexão direta
Se a narrativa atrai e os dados direcionam, o Corporate Access é o momento em que a relação se aprofunda.
Tradicionalmente, o acesso a investidores era fortemente intermediado pelo sell-side. Hoje, observa-se uma tendência clara de desintermediação, com companhias assumindo um papel mais ativo na construção dessas conexões. Isso não significa eliminar intermediários, mas sim complementar essa atuação com iniciativas próprias e mais estratégicas.
Nesse novo modelo, o RI:
- Identifica investidores com base em dados e aderência
- Prioriza interações de maior valor estratégico
- Diversifica sua atuação geográfica
- Utiliza eventos, visitas e interações como ferramentas de construção de confiança
Dentro dessa lógica, eventos — especialmente aqueles proprietários, como Investor Days — assumem um papel ainda mais estratégico. Eles não apenas aprofundam o relacionamento com investidores já engajados, mas funcionam como uma poderosa alavanca de descoberta.
Na prática, são frequentemente esses momentos que permitem que a companhia acesse investidores que, em condições normais, dificilmente estariam em seu radar:
“O único momento que você consegue engajar pessoas que nunca olhariam seu papel ou que eventualmente, né, abre porta, fala: ‘Putz, é um evento, vai ser bacana, vou me conectar com outras pessoas e dar oportunidade de olhar pra tua empresa.”
Beatriz Silva, Head de RI da Espaçolaser no IR Summit 2026
Esse efeito de “porta de entrada” é particularmente relevante em um mercado competitivo por atenção. Eventos bem estruturados criam um ambiente menos transacional e mais relacional, permitindo que a narrativa da companhia seja apresentada de forma mais completa, contextualizada e, muitas vezes, mais convincente.
Mais do que uma agenda de reuniões, o Corporate Access passa a ser um mecanismo ativo de expansão da base de investidores.
Um ponto particularmente relevante é a expansão para praças fora dos grandes centros tradicionais. Investidores regionais, muitas vezes menos saturados, tendem a apresentar maior disponibilidade para aprofundamento e engajamento.
Essa percepção não é apenas conceitual, mas prática. Em discussões recentes com profissionais de mercado, essa diferença de qualidade de acesso foi evidenciada de forma clara:
“…quando você vem para São Paulo, onde tem todos os eventos, tem vários eventos, você conversa muito com o analista mais júnior ou não com a pessoa que toma a decisão. E muitas vezes eles até declinam reunião com a gente. E aí você tem que ficar acompanhando até que, em algum momento, você tenha oportunidade. E quando você vai para BH, para Brasília, tem uma carência lá nesses lugares de evento. Então, você conversa com os gestores e você consegue ter um engajamento muito relevante.”
Camila Conrado, Superintendente de RI da Profarma no IR Summit 2026
Esse tipo de dinâmica reforça que a eficiência do Corporate Access não está apenas na quantidade de interações, mas na qualidade e no nível de decisão dos interlocutores. Em muitos casos, sair do eixo tradicional não significa perder relevância — significa ganhar profundidade.
Além disso, o investidor pessoa física ganha relevância não apenas como fonte de liquidez, mas como indicador da clareza da comunicação. Sua capacidade de entendimento — ou dificuldade — funciona como um teste prático da qualidade da narrativa.
Importante lembrar: Corporate Access não é apenas um evento, mas sim um processo contínuo.
Os riscos de uma estratégia mal executada
Embora o avanço tecnológico e a sofisticação das ferramentas tragam ganhos evidentes, também introduzem novos riscos.
Entre os principais:
- Over-targeting: foco excessivo em um perfil específico, limitando a diversidade da base acionária
- Dependência de dados históricos: ignorar mudanças de estratégia dos investidores
- Narrativa desalinhada com execução: gerar frustração e perda de credibilidade
- Excesso de segmentação: dificultar consistência da mensagem
O desafio do RI moderno não é apenas utilizar ferramentas, mas utilizá-las com critério estratégico.
Concluindo em um parágrafo ou mais
Em um mercado cada vez mais competitivo por capital, a eficiência da comunicação passa a ser um dos principais diferenciais estratégicos das companhias.
O papel do RI evolui de um agente de divulgação para um orquestrador de percepção e direcionador da base acionária. Ao alinhar narrativa, dados e relacionamento, o profissional de RI influencia não apenas como a companhia é vista, mas por quem ela é acompanhada, e, consequentemente, como ela é precificada.
Ferramentas como IRM, targeting e profiling tornam possível executar essa estratégia com precisão. A narrativa garante coerência e entendimento. O Corporate Access transforma intenção em relacionamento. O resultado é uma base acionária mais aderente, uma comunicação mais eficiente e um mercado mais alinhado com a realidade da companhia.
Em última instância, essa combinação reduz assimetrias de informação, melhora a confiança dos investidores e contribui diretamente para a redução do custo de capital. O futuro do RI não pertence a quem fala mais, mas a quem fala melhor e para quem realmente importa
Esperamos ter ajudado com esses insights que consideramos muito importantes para os profissionais de RI e, qualquer dúvida, já sabem, estamos por aqui, sempre à disposição! 😉
Equipe Comunicação Externa & Pesquisa MZ
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Sobre a MZ
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