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A Resolução CVM 193 e seus impactos nos relatórios de sustentabilidade

(imagem gerada por IA)
A sustentabilidade deixou de ser um tema restrito às áreas ambientais ou de responsabilidade social. À medida que investidores passaram a incorporar fatores ambientais, sociais e de governança em seus processos de análise, os Relatórios e ESG ganharam espaço na própria comunicação financeira das organizações. Mais do que apresentar iniciativas e compromissos, tornou-se necessário demonstrar como questões relacionadas à sustentabilidade podem afetar estratégia, riscos, oportunidades, geração de caixa, acesso a financiamento e criação de valor.
Esse movimento ganhou força com a criação dos padrões internacionais IFRS S1 e IFRS S2 pelo International Sustainability Standards Board (o famoso ISSB). No Brasil, a incorporação dessa agenda ao ambiente regulatório ocorreu principalmente por meio da Resolução CVM 193, publicada em 2023 e posteriormente alterada, inclusive pela Resolução CVM 244, de maio de 2026.
Pensando nisso, a MZ traz nesse artigo como para companhias abertas e profissionais de Relações com Investidores (o famoso RI), a discussão sobre Relatórios e sobre o disclosure de ESG em si passa por uma mudança de perspectiva. Sustentabilidade tende a ser analisada menos como uma narrativa paralela ao desempenho financeiro e mais como parte das informações necessárias para compreender riscos, oportunidades e perspectivas da companhia.
Essa transformação também influencia processos internos, seleção de indicadores, governança e narrativa corporativa. O resultado é uma aproximação crescente entre sustentabilidade, finanças e RI, além de ser uma oportunidade de transformar o reporte em instrumento de redução da assimetria informacional e fortalecimento da confiança do mercado.
O que mudou com a Resolução CVM 193?
Publicada originalmente em outubro de 2023, a resolução 193 da Comissão de Valores Mobiliários (a famosa CVM) estabeleceu regras para elaboração e divulgação de informações financeiras relacionadas à sustentabilidade com base nos padrões internacionais desenvolvidos pelo ISSB.
Em sua concepção inicial, a norma permitia a adoção voluntária por companhias abertas, fundos de investimento e companhias securitizadoras a partir dos exercícios sociais iniciados em ou após 1º de janeiro de 2024 e previa a obrigatoriedade para companhias abertas a partir dos exercícios iniciados em 2026. O ambiente regulatório, entretanto, evoluiu. Em maio de 2026, a Resolução CVM 244 retirou essa obrigatoriedade, preservando o caráter voluntário da adoção.
Isso não significa ausência de disciplina. A companhia que optar pela divulgação deverá observar os padrões aplicáveis e declarar de maneira explícita e sem reservas sua aderência. Além disso, a opção deverá ser mantida por pelo menos três exercícios consecutivos.
Há ainda outra mudança relevante: a partir de 1º de janeiro de 2027, companhias abertas que decidirem não arquivar o relatório deverão justificar publicamente essa decisão por meio de comunicado ao mercado. Na prática, a mudança desloca o debate de uma simples questão de compliance para uma decisão estratégica: faz sentido para a companhia adotar o padrão e como essa escolha será interpretada pelo mercado?
IFRS S1 e IFRS S2: o que está por trás da mudança?
Para compreender o impacto da CVM 193, é importante entender os dois principais padrões desenvolvidos pelo ISSB:
- O IFRS S1 estabelece requisitos gerais para divulgação de informações financeiras relacionadas à sustentabilidade, buscando permitir que investidores compreendam riscos e oportunidades que possam afetar as perspectivas da organização, incluindo potenciais impactos sobre fluxos de caixa, acesso a financiamento e custo de capital.
- O IFRS S2 concentra-se especificamente nas divulgações relacionadas ao clima, estabelecendo requisitos para a comunicação de riscos e oportunidades climáticas relevantes.
A mudança está principalmente no foco. A pergunta deixa de ser apenas “o que a empresa está fazendo em sustentabilidade?” e passa a incluir “como os riscos e oportunidades relacionados à sustentabilidade podem afetar o desempenho econômico e financeiro da empresa?” Essa conexão aproxima definitivamente sustentabilidade de Relações com Investidores.
Relatórios e ESG: da narrativa institucional à informação para decisão

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A evolução dos Relatórios e ESG representa também uma transformação na finalidade da comunicação de sustentabilidade. Durante muitos anos, esses documentos estiveram concentrados na apresentação de projetos, políticas, compromissos e indicadores. Esses elementos continuam relevantes, mas os padrões internacionais aumentam a demanda por uma ligação mais clara entre sustentabilidade e geração de valor.
Isso significa explicar, por exemplo, como riscos ambientais podem afetar receitas ou custos, como mudanças climáticas interferem na cadeia de suprimentos, quais oportunidades podem surgir da transição para uma economia de baixo carbono e como a governança acompanha essas questões. Quando essas conexões são construídas adequadamente, o documento deixa de ser uma coleção de iniciativas e passa a ajudar o investidor a compreender o negócio.
Essa transformação é particularmente relevante para RI, já que muitos desses assuntos também aparecem em reuniões com investidores, questionários de agências de rating, roadshows e análises produzidas por gestores e analistas. Quanto maior a consistência entre esses canais, menor tende a ser a assimetria informacional.
Materialidade financeira e governança ganham protagonismo
Um conceito central nesse ambiente é a materialidade financeira. Para o mercado de capitais, não basta saber que determinada questão ambiental ou social existe. É necessário compreender em que medida ela pode afetar as perspectivas econômicas da companhia.
Uma empresa com unidades produtivas em regiões sujeitas a estresse hídrico, por exemplo, pode divulgar seu consumo de água. Para um investidor, entretanto, outras perguntas serão igualmente importantes, como por exemplo:
- Uma restrição de abastecimento poderia interromper a produção?
- Seriam necessários investimentos adicionais?
- Qual seria o impacto financeiro?
Esse raciocínio transforma uma métrica ambiental em informação relevante para uma decisão de investimento. Por isso, os relatórios de sustentabilidade e investidores tendem a exigir maior integração entre sustentabilidade, finanças, riscos, jurídico, estratégia, operações e RI.
A governança dessas informações também ganha importância. As empresas precisam avaliar não apenas o que divulgar, mas como a informação é produzida: quem responde por cada indicador, qual é a fonte original, como ocorre sua validação, quais premissas são utilizadas e como a administração acompanha esses dados. Não basta, portanto, produzir uma boa narrativa. É necessário demonstrar consistência e rastreabilidade.
Comparabilidade como um benefício para investidores
Um dos problemas históricos do reporte de sustentabilidade é a dificuldade de comparação. Empresas de um mesmo setor podem utilizar indicadores, metodologias e níveis de detalhamento bastante diferentes. A adoção de padrões internacionais busca reduzir essa fragmentação ao criar uma base comum de divulgação, favorecendo transparência, confiabilidade, consistência e comparabilidade.
Para companhias brasileiras com investidores estrangeiros, essa característica pode ser especialmente relevante. Um gestor internacional que acompanha empresas em diferentes países precisa conseguir identificar informações comparáveis sem reconstruir completamente a metodologia de cada organização.
Isso não elimina particularidades setoriais ou empresariais. A companhia continuará precisando explicar seu contexto, mas poderá fazê-lo dentro de uma arquitetura informacional mais reconhecível pelo mercado.
E o relato integrado?
O relato integrado, que tem como base a Resolução CVM 14 de dezembro de 2020, continua tendo papel relevante na comunicação corporativa. Sua proposta é apresentar de forma conectada como a organização cria, preserva ou reduz valor ao longo do tempo, abordando estratégia, modelo de negócios, governança, desempenho e perspectivas.
O importante é compreender que diferentes documentos podem cumprir objetivos distintos. Um relatório corporativo pode atender diversos stakeholders e oferecer uma visão abrangente sobre a organização. Já o reporte baseado nos padrões do ISSB possui forte orientação para informações financeiras relacionadas à sustentabilidade relevantes aos usuários dos relatórios financeiros de propósito geral.
A companhia deve, portanto, buscar complementaridade e evitar duplicações ou inconsistências entre relatório anual, documentos financeiros, site de RI, apresentações institucionais e demais canais.
Sustentabilidade precisa conversar com os números
Um dos principais desafios desse novo modelo é garantir conectividade entre sustentabilidade e as demais informações divulgadas pela companhia. Se uma empresa afirma que a transição energética representa uma grande oportunidade de crescimento, investidores naturalmente buscarão evidências: existe CAPEX associado? Há metas? O assunto aparece no planejamento estratégico? Existem impactos esperados sobre receitas ou margens?
Essa conectividade é essencial para a credibilidade. Quando a narrativa de sustentabilidade aponta em uma direção e as decisões financeiras apontam em outra, o mercado pode identificar a inconsistência. Quando estratégia, alocação de capital, gestão de riscos e comunicação convergem, a mensagem corporativa se torna mais robusta.
É justamente nesse ponto que a área de Relações com Investidores pode exercer um papel importante. O profissional de RI mantém contato constante com analistas, gestores e acionistas e, por isso, possui uma visão privilegiada sobre as dúvidas recorrentes do mercado. Essa experiência pode ajudar a companhia a identificar lacunas e evitar documentos tecnicamente completos, mas pouco orientados às perguntas dos investidores.
A qualidade dos relatórios de sustentabilidade e investidores, portanto, depende não apenas da quantidade de informações disponíveis, mas da capacidade de organizá-las de forma útil para análise e tomada de decisão.
Menos greenwashing, mais evidências
A padronização também pode contribuir para reduzir riscos de greenwashing. Quanto mais genérica é a comunicação, maior o risco de utilizar expressões positivas sem evidências suficientes. Termos como “sustentável”, “verde”, “responsável” ou “baixo carbono” precisam ser acompanhados de contexto, metodologia, indicadores e critérios.
Para as companhias, uma comunicação baseada em evidências é uma das melhores formas de mitigar esse risco. Em vez de afirmar apenas que existe compromisso com determinada agenda, é mais útil apresentar objetivos, indicadores, evolução, governança, desafios e resultados. Inclusive quando o desempenho ainda está distante do desejado.
Transparência sobre dificuldades pode gerar mais credibilidade do que uma narrativa excessivamente positiva.
O que a mudança de 2026 significa para as companhias?
A alteração promovida pela Resolução CVM 244 modificou significativamente o desenho originalmente estabelecido pela resolução CVM 193. A adoção do reporte não deve mais ser interpretada como obrigação automática das companhias abertas em 2026. A decisão passou a demandar uma avaliação estratégica que considerasse o perfil da base acionária, presença de investidores internacionais, relevância dos fatores de sustentabilidade para o setor, maturidade dos controles internos e demanda informacional do mercado.
Ao mesmo tempo, decidir não adotar também exigirá reflexão. A partir de 2027, companhias abertas que optarem por não arquivar o relatório deverão explicar publicamente os motivos da administração. Assim, a pergunta deixa de ser simplesmente “somos obrigados?” e passa a ser “qual estratégia de comunicação de sustentabilidade é mais adequada para a companhia e como essa decisão será explicada ao mercado?”
Como as empresas podem se preparar
Mesmo em um regime voluntário, a preparação de um reporte robusto demanda planejamento. O primeiro passo é realizar um diagnóstico das informações existentes. Muitas empresas possuem grande quantidade de dados ambientais, sociais e de governança distribuídos por diferentes sistemas, departamentos e documentos.
Em seguida, é necessário definir responsabilidades, metodologias, periodicidade de atualização e processos de validação dos indicadores. Também é recomendável realizar uma análise das lacunas entre as informações disponíveis e os requisitos dos padrões aplicáveis. Isso permite identificar o que já existe, o que precisa ser aprimorado e quais informações ainda precisam ser estruturadas.
Outro ponto fundamental é aproximar sustentabilidade, RI, finanças, riscos, jurídico e governança desde o início. Tentar construir o reporte apenas no momento da publicação aumenta o risco de inconsistências.
Por fim, é necessário pensar na experiência do usuário da informação. Um relatório tecnicamente correto também precisa ser compreensível, permitindo que investidores encontrem rapidamente as informações necessárias para suas análises.
A oportunidade além do compliance
Talvez o principal risco seja tratar esse movimento exclusivamente como uma questão regulatória. Se o objetivo for apenas cumprir requisitos, o resultado pode ser simplesmente mais um documento produzido anualmente. Mas acreditamos que exista uma oportunidade maior.
A estruturação das informações de sustentabilidade pode ajudar a empresa a compreender melhor seus riscos e oportunidades, melhorar discussões sobre investimentos, fortalecer a governança e aproximar a sustentabilidade da estratégia. E, principalmente, pode melhorar a qualidade da comunicação com investidores.
Essa perspectiva é relevante porque os padrões internacionais relacionam diretamente sustentabilidade a fatores capazes de afetar fluxos de caixa, acesso a financiamento e custo de capital. Sustentabilidade e valuation, portanto, não precisam ser universos separados. Quando uma questão ambiental, social ou de governança pode afetar geração de caixa, risco, investimento ou financiamento, ela também pode fazer parte da análise econômica da companhia.
“O mercado não precisa apenas saber o que uma companhia faz em sustentabilidade. Precisa entender como esses fatores se conectam à estratégia, aos riscos e à geração de valor, com uma narrativa clara, consistente e sustentada por dados que transforma ESG em informação relevante para o investidor.”
Cássio Rufino, COO & CMO da MZ
Concluindo em um parágrafo ou mais
A evolução regulatória iniciada pela resolução CVM 193 representa uma mudança importante na relação entre sustentabilidade e mercado de capitais no Brasil. Mesmo após a retirada da obrigatoriedade prevista originalmente para 2026, o movimento em direção a informações mais comparáveis, estruturadas e conectadas ao desempenho econômico continua relevante.
Para as empresas, a discussão sobre Relatórios e ESG não deveria se limitar à escolha entre publicar ou não determinado documento. A questão mais estratégica é saber se investidores conseguem compreender como fatores de sustentabilidade se relacionam com riscos, oportunidades, estratégia, investimentos, geração de caixa e perspectivas futuras.
Nesse cenário, a área de Relações com Investidores tem uma oportunidade relevante de atuar como ponte entre sustentabilidade e mercado de capitais, levando para dentro da organização as perguntas dos investidores e ajudando a transformar dados técnicos em informações úteis para decisões de investimento.
No fim, o mercado não quer saber apenas o que a empresa faz em ESG. Quer compreender como esses fatores podem afetar o valor da empresa. É nessa conexão entre sustentabilidade, estratégia, finanças e comunicação que o reporte pode gerar seu maior valor. E é justamente nessa conexão entre sustentabilidade, estratégia, finanças e comunicação que os relatórios podem gerar seu maior valor.

Esperamos ter contribuído com insights sobre esses relatórios muito importantes para as companhias e sua contribuição para a geração de valor e redução do custo de capital no longo prazo. Qualquer dúvida, já sabem, estamos por aqui, sempre à disposição! 😉
Equipe Comunicação Externa & Pesquisa MZ
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Sobre a MZ
A MZ é referência global na criação de conteúdos informativos e educativos que geram valor real para as companhias, ajudando-as a se manterem atualizadas e preparadas para os desafios do mercado de capitais. Nossa abordagem é estratégica, com foco em fortalecer o entendimento sobre práticas de governança, comunicação financeira e relações com investidores. Acreditamos que, por meio de conteúdo de qualidade, podemos apoiar as empresas a aprimorar sua comunicação, elevar sua reputação e agregar valor sustentável aos seus negócios.
Sobre Cássio Rufino
Cássio Rufino é estrategista empresarial, especializado na integração entre estratégia, marketing e performance financeira. É Sócio-diretor da MZ Group, sendo o atual COO e CMO, onde lidera áreas estratégicas de operações, sucesso do cliente e marketing. Formado em Administração de Empresas pelo Mackenzie, com pós-graduação e MBA Executivo em Finanças pelo Insper. Além de especializações em Gestão de Pessoas, Marketing e Atendimento ao Cliente.
